Autoras
Minibiografia
Nascida em 3 de julho de 1995, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. É graduada em Letras – Língua Espanhola, graduanda também em Ciências Sociais e Política, além de ser mestranda no Programa Interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas.
Poeta, professora e pesquisadora na intersecção de literatura, gênero e relações de poder. Seu percurso reflete uma inquietação constante em compreender as dinâmicas sociais, as relações de poder e os processos simbólicos que atravessam tanto a linguagem quanto a vida em sociedade.
Jaqueline Alves de Souza enquanto poeta, assina como Jaqueline Alves.
Entrevista
Entrevista realizada no dia 29/05/2025.
A literatura sempre fez parte da minha vida. Desde muito nova, a
leitura foi uma companhia constante, uma forma de entender o
mundo e, muitas vezes, de escapar dele. Meu primeiro contato com
a escrita surgiu de maneira muito afetiva, através de cartas. Eu
amava escrever cartas para os meus amigos, e até tive uma
experiência muito especial quando, na adolescência, enviei uma
carta para uma amiga virtual que morava em Brasília — algo que,
na época, tinha um valor enorme, cheio de expectativa ecuidado.
Com o tempo, no meio dos atravessamentos da vida, passei por um
período de desencanto, de silenciar essa voz que antes fluía
naturalmente. Fiquei cerca de dez anos sem escrever. Recentemente, no
entanto, a escrita voltou a me habitar, mas dessa vez de uma forma
diferente, mais íntima e sensível: a escrita poética. Hoje, reencontro na
poesia uma possibilidade de me reconectar comigo, com meus afetos e
com aquilo que me move no mundo.
Eu diria que existem alguns temas que aparecem com bastante frequência na minha escrita. Eu escrevo muito sobre o amor, sobre o luto e sobre questões do cotidiano, sobre situações, sentimentos e reflexões que fazem parte da vida de qualquer pessoa. São temas que me atravessam, que fazem parte da minha história e que, de alguma forma, acabam se transformando em texto.
Um dos maiores desafios que nós, mulheres, enfrentamos no mundo literário hoje é ser levada a sério. Muitas vezes, a escrita feminina ainda é vista como algo menor, mais ligada ao emocional, como se não fosse tão profunda ou relevante quanto a dos homens. Além disso, existe uma falta de espaço, de visibilidade e de oportunidade, principalmente quando trazemos para a escrita temas que envolvem nossas vivências, dores, afetos e questionamentos. Ainda enfrentamos um mercado que, muitas vezes, prioriza autores homens, e quando olhamos para mulheres, geralmente são aquelas que se enquadram em certos padrões. Romper com isso, ocupar esse espaço e ter nossa voz ouvida é, sem dúvida, um desafio constante.
Vejo a literatura como uma ferramenta muito importante na luta por equidade de gênero. Ela tem o poder de dar voz a experiências que muitas vezes são silenciadas, de desconstruir estereótipos e de provocar reflexão sobre as desigualdades que ainda existem. Como Clarice Lispector disse, “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” A literatura pode ajudar a dar nome a essas experiências, questionar padrões e abrir espaço para narrativas que representam as múltiplas formas de ser mulher. Ela é um caminho para transformar pensamentos e atitudes, ampliando a compreensão e o respeito entre gêneros.
Como professora, acho um privilégio muito grande saber que meus textos podem ser lidos e debatidos em sala de aula, especialmente por novas gerações. Lembro muito bem de como foi importante para mim, na minha adolescência, ter acesso a textos que mexeram comigo, que me fizeram pensar e sentir de um jeito novo. Saber que posso contribuir para esse processo de aprendizado e reflexão é algo que me motiva muito na minha escrita e no meu trabalho com os estudantes. É uma forma de perpetuar o impacto que a literatura pode ter na vida das pessoas.
Confiem na sua voz e na sua forma única de ver o mundo. Escrever é um processo que exige coragem, porque muitas vezes enfrentamos dúvidas internas e também os desafios externos, especialmente em um mercado que ainda não é totalmente igualitário. Mas é importante persistir, escrever com sinceridade e não ter medo de ocupar espaços. A escrita tem o poder de transformar e de conectar, e cada texto é um passo para fortalecer essa presença feminina na literatura. Acima de tudo, busquem ler muito, se inspirar em outras autoras e criar uma rede de apoio com outras mulheres que compartilham esse mesmo sonho.