Autoras
Alessandra Carolina Santos Ramírez
Minibiografia
Nascida em 12 de abril de 1993, é graduada em Letras. Atua criando textos para projetos e base de conhecimento interna, além de produzir narrativas para compor antologias.
Alessandra Carolina Santos Ramírez, como escritora, assina somente como Alessandra C. Ramírez.
Entrevista
Quando íamos ao restaurante dos meus pais no Alecrim, na Avenida Presidente Bandeira, em frente a Caixa Econômica, havia uma banca de revistas onde um senhor de idade trabalhava. Em frente a essa banca, ele deixava uma mesinha cheia de Gibis da Turma da Mônica e, um dia, por curiosidade, acabei comprando um. Era coisa de cinquenta centavos. Me apaixonei quando li, queria ler mais e mais, então, toda semana, com o pequeno salário que meu pai me dava por ajudar no restaurante, eu comprava revistinhas. Esse início de história de amor com a leitura me levou a outros patamares, eu lia de tudo, até rótulo de Shampoo. Já no ensino médio, um professor de Literatura do qual só lembro o sobrenome: Saturnino. Criou um clube do livro, incrivelmente só eu participava, mas toda semana ele me dava três livros para levar para casa e ler. Era meu banquete de conhecimento. Nesse mesmo ano, durante uma aula de química em que eu definitivamente não estava prestando atenção, comecei a escrever um poema para um garoto por quem eu estava apaixonada, não era a primeira coisa que eu escrevia, mas me marcou pela situação que gerou. Meu professor percebeu que o que eu estava escrevendo não tinha nada a ver com a aula e puxou o papel para ler. Ficou pasmo, dobrou o papel, colocou no bolso do jaleco e levou pra casa. Uma semana depois ele aparece em sala de aula com um violão, e canta meu poema para a sala toda. Fiquei impressionada. Não fazia ideia de que o que eu escrevia poderia ser apresentado dessa forma. A verdade é que eu sempre escrevi, desde que aprendi a escrever. Cartas para minha avó, ou para minhas amigas, histórias que apareciam na minha cabeça. A escrita sempre salvou a minha vida.
Amor, saudade e natureza são meus principais temas. Chuva, céu, universo, oceano, sentimentos. Sempre brinco em torno deles. Acredito que devido a minha intensidade em comum com esses temas e porque, por ter vivido tanto tempo no litoral, aprendi a olhar o céu, as estrelas, o mar… O mar sempre me inspirava e me deixava pensativa, é difícil voar em uma cidade puramente de concreto. Somos da natureza, precisamos do contato dela e o contato com nossas raízes para florescer.
Acredito que a literatura feminina ainda é sub–representada em currículos escolares e acadêmicos, perpetuando um cânone predominantemente masculino. Mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+ e de outras minorias enfrentam uma invisibilidade ainda maior, com suas histórias adormecidas e menos oportunidades de publicação. Mesmo com alguns movimentos literários e incentivos para que o mercado abra mais as portas para essas mulheres. Lembro da minha época na escola, quando falamos de autores brasileiros citamos Machado de Assis e outros grandes nomes masculinos. Mas a primeira vez que ouvi sobre uma autora mulher, foi no terceiro ano do ensino médio, quando uma professora nos apresentou Nísia Floresta, Zila Mamede e Auta de Souza, autoras Potiguares, e eu fiquei absolutamente encantada, porque um amigo meu, que já tinha lido meus poemas, disse que minha poesia lembrava ao estilo poético da Auta. Fora essas escritoras, ouvi sobre Cecília Meireles e Clarisse. Mas, comparado com a enxurrada de nomes masculinos presentes na nossa educação, tanto em literatura quanto história, a fomentação de informação sobre autoras, ainda deixa a desejar.
Com a maioria, quando não quero apenas derramar lágrimas no papel. Meus poemas e contos são carregados de sentimentos a respeito da sociedade. Como julgamos os outros. Como deveríamos ser mais unidos. Como as pessoas deveriam olhar de uma forma mais subjetiva o outro, ao invés de julgar superficialmente. A dor da exclusão, o abandono, o escárnio e a intolerância, são temas recorrentes na minha escrita. Recentemente tenho escrito muito sobre discriminação, acho que talvez eu esteja cansada de ver tanta injustiça e ficar calada.
Gosto de imaginar que a literatura feita por mulheres no RN pode emergir em um cenário de crescente visibilidade, diversidade e reconhecimento. Acredito que poderemos ver uma produção literária ainda mais rica e variada, com mais vozes emergindo e rompendo barreiras. Talvez, projetos como este, incentive cada vez mais autoras a sair do anonimato. O RN é muito rico em cultura, e o feminino trás muita sensibilidade, tem muito chão a ser descoberto.
Agradeço a oportunidade de mergulhar nesse universo tão rico e importante que é o RN. Projetos como este são essenciais para dar visibilidade a talentos muitas vezes sub–representados e para valorizar a diversidade de narrativas e perspectivas. Que este projeto possa inspirar todas as escritoras que tem projetos na gaveta, que elas possam sentir que a escrita delas é importante, e que elas podem fazer a diferença para outras gerações de mulheres potiguares.