Autoras
Minibiografia
Nascida em 09 de fevereiro de 2003, é graduada em Letras – Língua Portuguesa pela UFRN e, atualmente, mestranda em Letras pela UFPB, na linha de pesquisa Estudos africanos e Afro-brasileiros.
Poeta, professora e pesquisadora e oficineira.
Fabiane Marques da Silva, como poeta, assina somente como Fabiane Marques.
Entrevista
Entrevista realizada em 01 de Julho de 2025.
A literatura entrou na minha vida como um susto de existência. A realidade é que ela nunca entrou, pois sempre esteve comigo. Antes mesmo de tomar conhecimento de quem ela era, a literatura já fazia parte da minha vida, no entanto, não por meio dos textos escritos, mas a partir da oralidade. Quando criança, poucos eram os livros que tinha em casa, entre eles, a bíblia do meu avô e as histórias em quadrinhos que minha mãe trazia do trabalho. A verdade é que lia com os ouvidos as histórias que meus avós me contavam. Sobre um sertão, um rio, um açude, uma escola, uma brincadeira, uma cicatriz, uma lembrança. Meus avós foram as minhas bibliotecas vivas. Por essa razão que costumo dizer que cresci lendo com os ouvidos. Depois de grande é que fui ter acesso a livros físicos e fui atraída pela literatura negro-brasileira, por encontrar nela, principalmente, uma dicção familiar que me perpassa na cor da pele, na pesquisa e na fé.
Sim. Foi a partir do meu entendimento como uma mulher negra que passei a escrever e reivindicar a palavra escrita para subverter os silêncios da história. Como bem pontua a escritora Conceição Evaristo sobre “tomar o lugar da escrita, como direito, assim como se toma o lugar da vida”. De modo que no mercado editorial não foi diferente, apesar das dificuldades, foram outras mulheres escritoras que me auxiliaram e apoiaram ao longo de todo o processo.
Levando em consideração que, ao longo de muitos anos, a literatura brasileira privilegiou a escrita de homens brancos, que nutriram uma imagem estereotipada, submissa e passiva, principalmente de mulheres negras e indígenas, quando essas apareciam em suas narrativas e poemas. Ao assumir o lugar de fala, tais autoras não-brancas contestam e rasuram um sistema que detém o monopólio da enunciação. De modo que, nessa perspectiva, enxergo a literatura como um ambiente fértil para semear palavras, nutrir outros imaginários e, portanto, traçar outros futuros e olhares sobre a nossa própria corporeidade e existência.
Materiais de divulgação, conteúdos e referências
Galeria
Escrita
Leia o poema “Desertificando Lembranças
vovó sempre me dizia:
“isso daqui tudo, minha filha, era água.
tomei tanto banho aqui.
vinha com mamãe pra lavar roupa.”
desertificando lembranças
dos tempos de cheias
de quando “lagoa grande” e “lagoa do canto”
não era só um nome.
as águas que um dia
cobriram os pés miúdos de minha avó
hoje não existem mais.
a terra se fez pele seca
uma vez por outra é que o céu chora de saudade
umidificando o rosto dos que ficam.
Há também a leitura da obra, de sua organização, sequenciação das partes e dos poemas, como um rio que nasce no interior do Rio Grande do Norte e deságua na capital. Uma leitura bonita que conflui com os caminhos do meu próprio rio, que nasce em São Pedro, com as minhas bisavós, passa por Macaíba, cidade que nasci, São Gonçalo do Amarante, onde estudei no IFRN e deságua em Natal, ao cursar Letras na UFRN. Em questão, quem faz esse mesmo trajeto é o rio Potengi.