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13 dezembro 2025 by

Autoras

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Araceli Sobreira

Estilo Literário: Contos , Diário , História Infantil , Mini-contos , Poema , Poesia

Região: Alto Oeste , Leste

Cidade de Origem: Mossoró , Natal , Parnamirim

Minibiografia

 

Nascida em 15 de setembro de 1966, é graduada em Letras pela UFC. Tem Mestrado e Doutorado em Estudos da Linguagem pela UFRN. Lecionou por 34 anos Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Portuguesa e Literatura e Religião, entre outras disciplinas, principalmente na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, onde se aposentou recentemente.

Araceli Sobreira Benevides, como escritora, assina somente como Araceli Sobreira.

Entrevista

“A literatura entrou muito cedo em minha vida, por influência de minha mãe, que era uma mulher muito culta e que tinha a leitura de poesias como um hábito. Ela me apresentou poetas como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e muitas canções brasileiras muito cedo. E, com 12 anos já escrevia poemas que organizava em um caderno. Um dos primeiros poemas que fiz se chama “Na esquina da vida” e minha mãe enviou para o encarte infantil do Jornal de Brasília, sendo publicado em 1982. Não parei mais de escrever, desde então. São muitos cadernos cheios de poesias e contos”.

” Sim, tenho alguns rituais: primeiramente, gosto de escrever à lápis (grafite), com ponta bem afiada, e em cadernos. Se for com canetas, a ponta precisa ser porosa, em cor preta, dificilmente, escrevo em outras cores, porém acontece. Geralmente escrevo em ambientes que não são apropriados: palestras, encontros, aulas (durante a fase escolar e de faculdade – escrevi muito, escondido, porque me inspirava com o que ouvia dos professores). Tenho uma sensibilidade auditiva aguçada, quando escuto algo interessante, minha mente começa a divagar e, quando vejo, uma ideia aparece e preciso escrever. Sempre que viajo ou estou em um evento com pessoas falando, se apresentando, ando com uma pequena caderneta de anotações ou uma agenda anotando ideias….Às vezes, é uma expressão, às vezes, é um pensamento completo, e, muitas vezes, é uma poesia completa. 

Para escrever contos e as histórias infantis, o processo é o mesmo, porém, as anotações ficam restritas a nomes (possíveis) de personagens, locais, uma possibilidade de enredo ou drama.

Outra motivação que tenho é a leitura. Começo a ler e já tive que parar para escrever! Isso atrapalha um pouco o meu processo de aprendizagem, porque preciso de foco. Então, tive que me disciplinar: usar o tempo para ler, usar o tempo para escrever, mas nem sempre consigo”.

“Sim, há um tema muito recorrente: a mulher e sua luta e suas histórias. Porém, só fui perceber isso, já madura e depois de anos de escrita, quando comecei a ter pessoas lendo o que eu escrevia.

Também gosto de escrever sobre o sertão e as experiências sensoriais com a natureza, os bichos e a própria existência desse espaço”.

“Sim, e muito. Desde muito jovem tenho a percepção concreta das dificuldades de ser escritora e de não ter tido as mesmas chances de publicação que homens de minha geração tiveram, mesmo escrevendo ao mesmo tempo que eles, temáticas e obras que discutiam em pé de igualdade e qualidade literárias.

O mercado literário tem aberto espaço para as mulheres muito recentemente e ainda muito devagar. Há bastante o que fazer para se garantir igualmente as mesmas vantagens e o mesmo lugar em eventos e ambientes de fala – tanto quanto nas publicações”.

“A literatura feita por mulheres precisa abrigar as que escrevem e não são publicadas e as que não conseguem estar na mídia, principalmente, por não estarem em capitais onde editoras grandes favorecem o reconhecimento e a divulgação das obras.

Muitas autoras estão restritas ao seu local e não possuem apoio para participarem dos eventos literários de maior porte nas grandes capitais – além de não conseguirem boa divulgação. Estar nas redes sociais não é o suficiente”.

“Minha escrita denuncia o papel da mulher sertaneja comum, principalmente aquelas que sustentaram as famílias com a costura, o bordado, fazendo artesanato, crochê, trabalhando silenciosamente. Mostra ainda situações de violência silenciosa: quando homens traíam, eram os que tudo podiam e a mulher dependia deles para tudo, por não terem escolha. Então, há uma crítica social a determinadas épocas da história antiga e também da mais recente, porque professoras e professores reconhecem trajetórias de mães, tias, primas, avós – mulheres bem próximas da realidade delas(es) quando leem as obras (poesia e contos) no ambiente escolar”.

“Nos últimos anos, tenho vivido a experiência de acompanhar escolas realizando toda a fase de construção de sequências didáticas a partir de poemas ou de livros completos meus, sendo, posteriormente, convidada, para a culminância dessas atividades.

Em duas realidades, uma em uma escola de Ensino Fundamental I de São Gonçalo do Amarante e outra, em uma escolar particular de Parnamirim, tive a oportunidade de ver a trajetória de meu pai – um caminhoneiro que viveu parte da vida na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, ser retratada em detalhes, a partir das canções de Roberto Carlos, de cenas dele viajando pela Serra do Araripe, me apresentando a natureza rústica do sertão. Em ambas as escolas, fui às lágrimas, em ambas, duas meninas me representaram quando criança e me vi realmente naquela idade aprendo a ser “sertaneja”, mesmo não nascendo no sertão. A força da representação que a escola constrói ao produzir as narrativas que criamos é de um aspecto inovador e possibilita o autor a se encantar cada vez mais pelo fazer literário”.

“A literatura sempre muda a realidade de quem lê. Nunca somos os mesmos depois que lemos um poema ou uma narrativa. Essa é a grande mudança que a escola precisa “comunicar” aos estudantes. 

A escola precisa incluir a leitura como fonte de conhecimentos, como algo do cotidiano (e não como obrigação), é prazeroso ler, conhecer os mundos que são construídos pelas narrativas e pelos narradores. Mas isso só se faz se docentes forem leitores. Meus textos – na medida do possível – podem gerar encantos sobre uma realidade distante: o sertão que habita nas narrativas, o sertão de onde vieram muitos parentes das gentes que estão no litoral, ou nas capitais. As vivências de pessoas que não estão mais aqui para contar as coisas do passado, que devem ficar na memória”.

“Sim, tenho um conto chamado “A menina e a Serra do Feiticeiro”, que está no livro “O Espelho de Eloísa”, que eu crio uma versão para o nome da Serra a partir de um Feiticeiro. Essa Serra situa-se em Lages, e quem viaja para Mossoró passa por ela. Eu fiquei intrigada pelo nome da serra e ninguém da região que eu conheci até então, me deu uma explicação razoável para a serra ter este nome e inventei uma história fantástica, imaginando uma explicação. Vale a pena ler”.

Materiais de divulgação, conteúdos e referências

Escrita

Paisagem de meus olhos

O sertanejo: 

duro, moreno, olhos cegos de tanta luz… 

Boca moscando um quê de nadinha, 

cuspindo seco. 

O sertanejo:

 vivente acordante. 

Trabalhador de correias,

 construtor de açudes sempre secos, 

feito as pontas de galhos 

que se quebram na vista dessa estrada…

 

Canção pra cabloca do meu sertão

A mulher abre a porta, 

varre o quintal,

 levanta poeira. 

À pino está o sol, 

o nordeste queima o horizonte, 

“quanto vento morno!” 

– lembra na rede o homem quente. 

Uma sombra nos olhos 

Ardem feito poeira do chão de barro.

 A barriga inchada do filho descalço

 Lembra: “é hora de feijão com farinha”.

 “ – Quem vem pra mexer a panela que entorna 

um coração pedinte de sonhos?”

 

Canção pra nega velha da Fazenda

A negra velha 

Ajoelha-se diante do santo. 

Põe feijão, folhas de louro, 

Rosas, sal grosso. 

Pede bênçãos,

 pede liberdade, 

pede vida boa pros netos. 

São muitos: negros, mulatos, sararás. 

Um quase branco. 

“Isso dá vida à vida?” 

É sangue negro, sangue grosso, 

desce das costas 

que a chibata abriu. 

A velha negra dorme quieta

 tem no colo um pobre ser

 e canta firme: 

“Vem, meu Deus, alumiá meu dia,

 alumiá a vida, 

alumiá meus sonhos!”

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