Autoras
Ana Cláudia Trigueiro
Minibiografia
Nascida em 31 de março de 1973, em Natal/RN, é graduada em Psicologia.
É servidora pública e trabalha na Secretaria Municipal de Saúde.
Ana Cláudia Trigueiro de Lucena, como escritora, assina somente como Ana Cláudia Trigueiro.
Entrevista
“A escrita aconteceu na minha vida por causa da leitura. Sou, antes de tudo, uma leitora aficionada. Acredito que seja assim com a maioria dos escritores. Meus pais me incentivavam e se esforçavam para que eu tivesse livros em casa. Mamãe era professora de língua portuguesa e como papai vendia desde enciclopédias até literatura infantil, sempre tive clássicos, contos de fadas, lendas brasileiras e mitologia grega na nossa estante. Os livros foram os primeiros brinquedos. Depois passei a frequentar bibliotecas públicas e pegar emprestado tudo o que me interessava”.
“Não. Geralmente acontece assim: as histórias nascem dentro de mim e vão me empolgando à medida em que penso no desenvolvimento delas. De uns tempos para cá faço um esboço com resumos, descrição dos lugares e personagens (nomes e anotações sobre os temperamentos deles). Quando finalmente chego ao notebook, o enredo está quase pronto, mas pode haver reviravoltas e uma história virar outra bem diferente da ideia original.
Não tenho um ritual, mas tenho uma rotina. Escrevo 1 hora pela manhã e das 20 até as 24h à noite. Coloco o notebook ou sobre a mesa, ou no colo sentada na rede e sigo até bater o cansaço. É solitário. Uma solidão deliciosa! Depois vem o encontro com os leitores, outro momento prazeroso”.
“Sim, impacta na minha escrita porque escrevo de um lugar vivido, antes de ser representado. Diferente de um escritor que representa a realidade a partir de experiências masculinas. Sobre a recepção no mercado literário, essa é uma pauta presente nos meus textos, pois publico manifestos em veículos locais sobre as dificuldades encontradas por mulheres escritoras. Mas preciso ressaltar que aqui no RN, não senti dificuldade por ser mulher, talvez porque escreva para jovens. As dificuldades surgem por morarmos longe dos grandes centros distribuidores de livros, como as regiões Sul e Sudeste”.
“Os desafios são muitos e eles se aprofundam se fizermos recortes de raça, classe e localização geográfica, por exemplo. Entre os maiores posso citar o reconhecimento desigual no cânone e na crítica (as mulheres são consideradas autoras de nicho, enquanto os homens são vistos como aqueles que escrevem sobre o caráter universal da humanidade);
Existe uma ideia de que as mulheres escrevem sobre “assuntos leves”, ou domésticos. Lembro de um leitor que me disse algo sobre meu livro de contos de terror: “você não parece o tipo de pessoa que escreve esse gênero”.
Mulheres ainda são minoria nas listas de leitura obrigatória, nas academias de letras e entre os premiados literários; grandes editoras ainda publicam mais homens ou dão a eles tiragens maiores, maior divulgação e contratos mais vantajosos;
Mulheres ainda enfrentem dificuldades em conciliar tempo de escrita com o trabalho doméstico e de cuidado, o que reduz produtividade e visibilidade. Eu, por exemplo, nunca tive coragem de me trancar em um escritório e deixar os filhos fora, coisa que os escritores sempre fizeram. Escrevi por toda a vida em um corredor, enquanto eles pulavam em volta.
Em contextos conservadores, as escritoras que abordam temas como sexualidade, corpo, maternidade, violência ou política são julgadas mais severamente. A censura nem sempre é explícita, mas aparece como silenciamento, exclusão de editais ataques virtuais ou rotulação moral.
Nas redes sociais, as autoras enfrentam violência simbólica. O ambiente online dá visibilidade, mas pode cobrar um preço alto, como comparações, cobrança estética, pressão para ser a “escritora perfeita” (o que ninguém é).
O conceito de “mulher” no mercado editorial ainda é tratado como homogêneo, quando na verdade é múltiplo. As experiências de mulheres negras, indígenas, periféricas, lésbicas, idosas, com deficiência ou trans ainda têm pouca representação editorial”.
“Sim. Em muitos textos meus é a mulher quem resolve o conflito. É ela quem mata o lobisomem em uma história de terror, ou quem ensina sobre a vida, quem faz justiça, quem se ergue das cinzas. Ela diz não ao pedido de casamento quando deseja ser livre. E não é incomum que as leitoras mais jovens afirmem que não gostaram do final da história porque o casal não terminou junto. Ainda somos românticas e esperamos esse final feliz amoroso característico do romance burguês do século XIX. Desconstruir essa lógica é uma das missões da nova geração de escritoras.
Um dos compromissos das autoras de hoje é combater a herança de uma tradição que apagou suas antecessoras. Para nós, resgatar nomes esquecidos é, além de um ato poético ou literário (no caso das prosadoras como eu), uma atitude política.
Coletivos como o Mulherio das letras, Mulherio Zila, Mulherio Nísia, clubes de leitura como o Mulheres lendo mulheres, Candeeiro e pesquisadoras como Constância Lima Duarte e Diva Cunha, têm publicado obras de referência que registram essa memória”.
“A escritora americana Laura Ingalls Wilder foi a primeira a me influenciar. Sem ela, eu jamais seria romancista. A dinamarquesa Karen Blixen (autora de “A festa de Babete”); Jane Austen (principalmente com o romance Persuasão)… Mais recentemente, a americana Maia Angelou (com o maravilhoso “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”) a espanhola Dolores Redondo (com sua trilogia Bastan) e a sino americana Tess Gerritsen. Aqui no Brasil, Ligia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Marina Colassanti, Cora Coralina, Conceição Evaristo, Eliane Potiguara (com “Metade cara, metade máscara”)”.
Materiais de divulgação, conteúdos e referências
Escrita
“Antenor está imóvel. O olhar investiga o oceano. As ondas investem inclementes contra a jangada, pois é agosto. Ele não se importa com as ondas, com o vento, ou com o final de tarde que empurra o sol para o horizonte. Procura pelo demônio que o atormenta há vinte anos. Na mão, uma peixeira.
Em baixo d’água, Judas também espreita. Seus sentidos já detectaram a pesqueira e os batimentos cardíacos do pescador. Assim como Antenor, o bicho potencializa os atributos que o caracterizam como sendo daquela espécie. É bem maior e mais obstinado, do que qualquer outro. Também traiçoeiro, de forma que o apelido, caiu-lhe como uma luva.
Judas não atacará a jangada hoje. Já experimentou a fúria daquele homem: a cicatriz no dorso, quase o matou há vinte anos. Permitirá que Antenor retorne a terra firme, porque pressente que no dia que decidir matá-lo, também morrerá. O monstro fareja que seu fim está tão próximo, quanto o pescador na superfície.
Antenor volta ao escurecer. As luzes de Ponta Negra orientam o caminho para a baía da infância. Da janela de casa, a esposa o avista atracando, e reza agradecida a São Pedro…”.
Trecho do conto “A ira de Judas, contos assombrados”.