Autoras
Kalina Paiva
Minibiografia
Nascida em 20 de junho de 1977, em Natal-RN, é graduada em Letras pela UFRN onde também realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado em Estudos da Linguagem, área: Literatura Comparada. Além dessa formação, transitou em outras, tais como teatro e dança. Atualmente, é pós-graduanda em Dança do Ventre e Folclores Árabes do Brasil.
Atua como professora efetiva de Língua Portuguesa e Literaturas no IFRN – Campus Natal-Central, onde está como coordenadora do Núcleo de Arte (Nuarte) e líder do grupo de pesquisa NUPELLM, pesquisando temas como história, memória e literatura, literatura de terror e suas interfaces, e ensino de literatura.
Kalina Alessandra Rodrigues de Paiva, como escritora, assina como Kalina Paiva.
Entrevista
“Sempre estive cercada de livros e minha avó era contadora de histórias, uma influência para mim em narrativas de assombração.
Minha mãe é pedagoga e foi proprietária/diretora de uma escola onde comecei fazendo contação de histórias para crianças, ao mesmo tempo em que eu atuava no Grupo de Teatro Falas e Pantomimas (ETFRN) e era bailarina do Ballet Municipal de Natal. Minha relação com as artes vem desde muito cedo. Minha primeira publicação aconteceu em 2008, quando dois contos meus integraram a coletânea “Umas poucas palavras” que reuniu escritores potiguares participantes do Projeto Reticências, idealizado
pelo escritor Tullio Andrade. Éramos um grupo chamado Verborrágicos e estávamos celebrando cinco anos de existência. Dele faziam parte: eu, Tullio Andrade, Pablo Capistrano, Cláudia Magalhães, Sheyla Azevedo, Cefas Carvalho e Cosme Ferreira. “A incrível linguagem das
moscas” é um conto no qual uma aranha seduz a sua presa numa atmosfera erótico-kafkiana; “Depois das duas horas” traz questões mais existenciais, quando a protagonista está dirigindo em alta velocidade e encontra-se em crise.
Nessa época, eu fazia mestrado em Literatura Comparada que trouxe um fôlego novo, promovendo olhares dentro de mim sobre a literatura.
Depois, participei de várias coletâneas de poesia. Publiquei meu primeiro livro solo, Gatilhos Poéticos, em fevereiro de 2022, na data do centenário da Semana de Arte Moderna, uma comemoração simbólica para mim e oportuna para lançar algo meu no mundo”.
“A luta das mulheres e os percalços que enfrentam cotidianamente, a desigualdade social e questões referentes aos direitos humanos são centrais em minha produção. Encaro a escrita como território de diálogos, de encontro e confronto de pontos de vista e, sobretudo, uma oportunidade de levarmos nossa indignação perante as injustiças.
Minha arma é uma caneta ou um teclado de computador.
No campo do terror, voltei meu olhar às lendas locais (RN) e de outros locais do mundo porque elas revelam comportamentos culturais de determinadas épocas. Escolhi recontá-las à minha maneira. Em “A cruz da cabocla”, há denúncia de como as mulheres eram subjugadas pelo europeu. Já que não temos muitos registros escritos desse
cotidiano das indígenas e sim apenas relatos eurocêntricos
atravessados pelo olhar do colonizador, do lugar em que estou – enquanto escritora – posso refazer esse percurso, ainda que ficcionalizado. Eu me coloco no lugar das pessoas, imaginando o que passaram em determinada época, pois a literatura me permite esse exercício de alteridade”.
“Ainda que sejamos muitas nas estatísticas populacionais, sabemos bem que os homens dominam o mercado editorial porque há uma tradição impregnada no Brasil, mas acredito que isso está mudando.
Ainda não alcançamos uma política editorial de paridade de gênero. Estamos publicando, mas os Prêmios ainda são arrematados pela grande maioria dos homens. Ser mulher neste nicho é um desafio e essa condição nos impacta sim. Ainda bem que temos um movimento leitor protagonizado por mulheres que incentivam pessoas a lerem mulheres. Os clubes de leitura são necessários, enquanto um dos agentes encadeadores de políticas afirmativas de gênero. Projetos
que divulgam mulheres democratizam e integram essa força, estando alinhado, inclusive, com a ODS 5 da ONU. Outra solução que pode ser pensada é a mobilização de grupos de pesquisa que estudem obras de mulheres, escrevendo a respeito. Buscamos fazer parte de um
sistema literário que inclui: produção do livro, venda e distribuição, publicidade, estudo das obras academicamente ou mesmo em espaço informais. Lançar o livro não é garantia para a leitura”.
“Duas situações devem ser postas aqui: o corporativismo entre os homens e o feminismo liberal que adoece a saúde dos grupos feministas literários atualmente.
A predominância de homens dentro da tradição, ou mesmo sendo responsáveis pela manutenção dessa tradição, impacta nas escolhas dos leitores dentro do mercado editorial. Eles ainda são maioria escrevendo e pesquisando/orientando dentro das pós-graduações. Os
que atuam no jornalismo cultural apoiam seus pares também. As mulheres precisam adotar práticas sororas e não apenas mencionarem a sororidade dos lábios para fora como bandeira política.
Há grupos feministas no RN – que se autointitulam progressistas – reproduzindo um modelo feminista liberal, criticado pela bell hooks em Teoria Feminista: da margem ao centro, e isso nos faz andar na contramão do que se espera em termos de ganhos dentro desse mercado. Há coordenadoras de grupos alimentando rivalidades e isso
precisa ser superado. No passado, fomos ensinadas pelo patriarcado a competir porque essa estratégia é a que mais desmobiliza movimentos. Não podemos agir como crianças inseguras. Todo o movimento perde com isso.
Se observarmos a força da literatura produzida pelas mulheres, teremos outro ponto de vista sobre a história do país, das mulheres e da sociedade. Leitores só não leem mulheres porque não são incentivados à leitura destas, mas, quando leem, gostam, uma vez que as mulheres têm uma forma peculiar de ficcionalizar o mundo em
sociedade”.
“A literatura é um campo artístico que dá voz às pessoas silenciadas historicamente e, para nós, escritoras, é uma ponte para desafiarmos estereótipos que nos foram atribuídos em narrativas masculinas. Quem, senão nós mesmas, faria reparação perante séculos de patriarcado e sexismo? Criar/representar personagens com valentia,
discutindo direitos já conquistados, ameaçados ou ainda a se conquistar, é tarefa para a mulher que escreve.
Há um ensaio de que gosto muito, escrito pela Virginia Woolf, Pensamentos de paz durante um ataque aéreo, através do qual ela reflete sobre o poder da escrita na criação de valores humanos e no combate à dominação (e morte) em contexto de guerra. Esse texto me ensinou muito sobre que projeto literário eu quero deixar no mundo ao mesmo tempo que deixou evidente algo: ser mulher e escritora já é, em si, um ato de resistência porque, além de desenvolver trabalhos domésticos não remunerados, eu sou um corpo feminino que escreve e reflete sobre o mundo. Só o fato de me posicionar dessa forma já me coloca numa militância em prol da voz feminina”.
“Meus livros tanto contribuem para formação de repertório quanto de pertencimento, no caso do livro de contos que ambientei no RN. Muitas vezes, vamos beber na cultura europeia porque não conhecemos nossa própria história. O escritor que produz na Europa está escrevendo sobre “questões locais” dentro da sociedade onde ele vive.
Eu escrevo literatura brasileira e trato de questões nossas, ainda que tragam sentimentos universais como o amor, a raiva, o medo. Além disso, as obras que produzi proporcionam discussões sobre as problemáticas sociais que nos afligem. Isso sem falar na ampliação do
vocabulário dos estudantes, entre outros mecanismos que podem ser analisados à luz do ensino de língua materna aliados à leitura literária e à cultura brasileira”.
“Vou deixar quatro conselhos para as novas gerações de escritores. O primeiro deles é: ler bastante. Não dá para se tornar escritor sem ler e conhecer a literatura. Mesmo os grandes escritores possuem referências que são inspiração para os seus trabalhos. Como segundo conselho, trago uma recomendação de Tolstói: se for falar sobre algo, comece pela sua aldeia. A possibilidade de sair coisas boas é real. O terceiro conselho, eu tomo emprestado da Toni Morrison: escreva a história que você gostaria de ter lido e que ainda não foi escrita. O quarto e último: investir em cursos de escrita criativa e literária. Há sites que disponibilizam conteúdo gratuito”.
Materiais de divulgação, conteúdos e referências
Escrita
Reflorestar
Livremos a cidade cinza
plantando livros
de todas as cores,
em todos os canteiros,
até que as esquinas sejam lidas
por trás das suas pálpebras
acanhadas pelas armas.
Poesia da obra “Cantigas de Amor e Guerra”, 2022.
Onde encontrar as obras
Livraria Nobel do Praia Shopping; Livraria Cooperativa Cultural na UFRN; Palavraria; Livraria Manimbu.